Revelar o verdadeiro Estado profundo – desconstruindo a narrativa “Trump x Deep State”

Tony Cartalucci, New Eastern Outlook, 2017 – Tradução: Amita Satya

Dentro e fora das fronteiras da América, muitas pessoas vivem a ilusão de que as políticas americanas são determinadas pelos representantes eleitos da nação com base em um cuidadoso exercício de equilíbrio entre os poderes executivo, legislativo e judiciário. Os mecanismos internos da política estadunidense, porém, estão muito longe disso.

Na verdade, um Estado profundo (deep state) não eleito controla os Estados Unidos, seus recursos, seu governo e sua população. O termo “Estado profundo”, no entanto, tem sido usado de forma excessiva e propositalmente abusiva, sobretudo após a eleição do presidente dos EUA, Donald Trump, com a intenção de seguir ocultando o verdadeiro Estado profundo e desviar a atenção pública do que está se tornando uma continuidade cada vez mais óbvia entre as agendas presidenciais de sucessivos governos.

Revelar e entender a natureza do verdadeiro Estado profundo é algo elementar, porém, fundamental para que se possa compreender como se originam e perpetuam as políticas estadunidenses. É também crucial para que se elaborem soluções que visem a refrear o poder e a influência indevidos exercidos por essa entidade aparentemente nebulosa.

Identificar o verdadeiro Estado profundo é fácil

Apesar do mito da “democracia”, o verdadeiro poder é exercido por aqueles que controlam os aspectos fundamentais de um Estado, província, município ou comunidade. Trata-se do controle sobre os instrumentos monetários e sobre infraestruturas básicas como água, energia, comunicações e transporte, sobre as indústrias, o sistema de saúde e os serviços públicos essenciais, e sobre formas mais visíveis de poder como o controle das forças policiais e militares.

Em raras circunstâncias, esses setores fundamentais estão sob o controle de organizações descentralizadas e populares, quando, então, os Estados profundos são fracos ou praticamente inexistentes. Na maioria das vezes, contudo, este não é caso – pelo menos até agora.

De modo geral, independentemente dos processos políticos que aparentem estar em curso, aqueles que realmente controlam esses aspectos essenciais costumam operar muito além, mas não fora do alcance da política. São, entre outros, as grandes corporações e instituições financeiras. Organizações, lobistas, plataformas de mídia, institutos de pesquisas (think tanks) e partidos políticos são constituídos por esses interesses especiais com o objetivo de projetar seu poder e influenciar ou dirigir inteiramente qualquer processo político.

O conceito de “Estado profundo” não é exclusivo dos Estados Unidos. Praticamente todas as nações, no decorrer da história da humanidade, não obstante suas supostas inclinações políticas, foram governadas por abastados e influentes interesses especiais, fosse de forma direta ou terceirizada.

Ignorar a retórica e os enigmas da política, concentrando-se onde realmente residem o dinheiro, o poder e a influência, revelará o verdadeiro Estado profundo.

Desconstruindo a narrativa “Trump x Estado profundo” 

Um exame superficial do governo do Presidente Trump é suficiente para revelar que ele não passa de uma das muitas extensões do verdadeiro Estado profundo. O magnata por trás do site de notícias supostamente “alternativo” Breitbart News, Stephen Bannon, que atua como principal estrategista do Presidente Trump, é, na verdade, um ex-banqueiro de investimentos do Goldman Sachs. O secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, também é ex-banqueiro de investimentos do Goldman Sachs. Além disso, foi gestor de fundos do suposto “arquiinimigo de Trump”, George Soros, tendo investido nas campanhas presidenciais tanto de Hillary Clinton quanto de Barack Obama.

O secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, é um executivo de longa data da ExxonMobil. E a lista continua.

Se fossemos mapear o fluxo de poder e influência dos Estados Unidos em nível global, rastreando seu caminho reverso até a fonte, acabaríamos chegando a Wall Street e às salas da diretoria de instituições financeiras e corporações como Goldman Sachs e ExxonMobil. Saindo desses recintos, encontraríamos também plataformas de notícias terceirizadas como a Breitbart News, voltadas a manipular, distrair e perturbar as emoções do público americano.

Em outras palavras, a verdade é que o governo Trump, assim como seus antecessores, é a própria personificação do Estado profundo.

Entretanto, começa a emergir uma narrativa que alega estar o Presidente Trump em guerra com um obscuro “Estado profundo” que englobaria desde a comunidade de inteligência até os burocratas de carreira dos EUA, os quais, de dentro do sistema, opõem “resistência” ao governo Trump e “suas” políticas.

Para explicar ao público americano esta calculada narrativa, outro auxiliar de propaganda do verdadeiro Estado profundo, a revista Time, publicou um artigo entitulado “President Trump’s Allies Keep Talking About the ‘Deep State.’ What’s That?” (Os aliados do Presidente Trump estão sempre falando do ‘Estado profundo’. O que é isso?)

Segundo a matéria:

Para os aliados de Trump na mídia conservadora e em Capitol Hill, trata-se de uma resistência organizada dentro do governo, que age para subverter sua presidência. Eles culpam os burocratas de carreira, muitos dos quais consideram como fiéis ao ex-presidente Barack Obama, de vazarem para a imprensa informações prejudiciais.

A Time cita ainda a Freedom House, uma organização financiada pelo governo dos EUA que se dedica a provocar mudanças de regime em todo o mundo, comandada pelos mesmos interesses especiais centrados em Wall Street – o Estado profundo real e verdadeiro –, tentando minimizar e relevar a ideia de que os Estados Unidos são, na verdade, administrados por tal entidade.

Lê-se que:

“[A Casa Branca] está utilizando um termo sedutor com um significado bastante real num ambiente onde tem havido muita violência associada a este termo, e nós o estamos aplicando a coisas bastante normais em termos de uma grande burocracia”, afirma Schenkaan, diretor de projetos da Freedom House. “Essas pessoas são servidores públicos que há muito tempo vêm desempenhando suas funções de forma dedicada.”

De volta à realidade, o público americano começa, mais do que nunca, a suspeitar de que o governo dos EUA está simplesmente cumprindo uma agenda única – independente de resultados de eleições e de afiliações políticas – de um conglomerado de interesses especiais, permanente e profundamente enraizado, que transcende partidos políticos, ideologias e mandatos presidenciais, assim como o direito nacional e internacional.

A criação de uma estratégia de tensão provocadora, envolvente e quase irresistível entre vários operadores do verdadeiro Estado profundo foi planejada intencionalmente para atrair e capturar o discurso político muito antes de que possa chegar ao público e revelar a verdadeira natureza tanto do Estado profundo quanto das soluções necessárias ao seu desmantelamento.

O Estado profundo dos EUA é um problema mundial 

É mais do que evidente que o verdadeiro Estado profundo americano representa não só a usurpação da soberania americana, mas uma ameaça à paz e à estabilidade globais. O exercício do poder e da influência injustificados dos Estados Unidos se manifesta através de guerras regionais, de subsequentes ondas de refugiados, de exploração socioeconômica e de catástrofes no seio de Estados alvos e de regiões inteiras, bem como de um mal-estar global causado por um conjunto de interesses especiais que abusam e desperdiçam de forma flagrante os recursos humanos e naturais do planeta para satisfazer seus próprios interesses egoístas e mesquinhos.

Este não é, portanto, um problema estadunidense, pois as consequências de um Estado profundo americano fora de controle se alastram por todo o globo.

Para confrontar este Estado profundo e todos os outros similares, de qualquer tamanho e alcance, é preciso que um cuidadoso processo de transição seja posto em prática por Estados de menor escala e por instituições modernas e descentralizadas, assim como por alternativas conduzidas por indivíduos.

Confrontar o verdadeiro Estado profundo na própria fonte de seu poder – suas atividades corporativas e financeiras e os lucros que extraem de bilhões de pessoas em todo o planeta – é imprescindível.

A eficácia dessa ação já vem sendo demonstrada em certas esferas, como na área de informações, em que as redes descentralizadas de plataformas de notícias genuinamente alternativas têm se contraposto e superado as capacidades de guerra de informação do verdadeiro Estado profundo. Ajudando a alavancar esse processo estão os centros competidores do poder global na Eurásia, que criaram plataformas de mídia concorrentes que diluíram ainda mais o domínio do Estado profundo estadunidense sobre as informações.

Um processo semelhante – possibilitado pela tecnologia – está acontecendo em todos os setores de produção e infraestrutura. A emergência de indústrias aeroespaciais no mundo em desenvolvimento começa a desafiar o monopólio aéreo e espacial estadunidense-europeu. As empresas chinesas que constroem trens e aeronaves – no lado mais robusto desse espectro – estão dissolvendo os monopólios desfrutados há décadas por empresas como a Boeing e a Airbus.

No lado menos forte do espectro, a produção localizada de bens de menor complexidade realizada por indivíduos e pequenas empresas, em economias e mercados formais ou informais, estão debilitando os monopólios centralizados de produção e varejo.

Fontes de energia alternativas como a solar se ajustam bem à produção descentralizada de energia, tanto de modo individual quanto nas chamadas redes de micro-geração. À media que essas micro-redes proliferarem, os monopólios de energia inevitavelmente enfraquecerão.

E o movimento de alimentação orgânica – uma rede em malha que continua a se expandir em saltos, ainda limitada em tamanho e capacidades – tem desafiado e até substituído completamente os monopólios agrícolas e de processamento centralizados, que também são parte do Estado profundo estadunidense.

Resolvendo o problema do Estado profundo 

Ainda assim, o Estado profundo continua sendo uma ameaça imensa e perigosa à paz e à prosperidade mundiais e individuais.

Há uma tendência humana natural de criar alternativas que contraponham ameaças como essa, mas que acabam se assemelhando a uma versão espelhada dessa mesma ameaça. Assim, um Estado profundo “chinês” ou “russo” no comando de uma ordem global unipolar simplesmente substituiria o gigantesco Estado profundo americano e prosseguiria com os abusos, assumindo o papel destrutivo atualmente desempenhado por Wall Street e por Washington.

Tratativas visando a uma ordem mundial multipolar, em que as nações se equilibrem mutuamente em vez de se submeterem a uma ordem exclusiva e unipolar dominada por um único Estado profundo e pelos interesses especiais que o constituem, farão a ponte entre a ordem global atual e um futuro descentralizado e equilibrado.

Uma ordem mundial multipolar, com as nações do mundo em equilíbrio, conduzirá então a um processo interno de descentralização e maior harmonia. Todo esse movimento será impulsionado pelas tecnologias, oportunidades de negócio e iniciativas sociopolíticas que resultarão do processo, possibilitando que cada indivíduo usufrua uma fatia mais proporcional dos recursos da nação ou comunidade.

Embora possa parecer contra-intuitivo que países como Rússia, Índia ou China, e mesmo atores secundários como Irã, Tailândia e Brasil, invistam em descentralização e auto-suficiência nacional e local, ou mesmo em economias, moedas e mercados informais, ao tomar essas iniciativas eles estarão contribuindo para minar o atual Estado profundo de dominação global que, por meio de suas mídias e do consumismo continua a atingir, ameaçar e influenciar praticamente todas as sociedades do planeta.

Em última instância, esquivar-se da estratégia de tensão nada sofisticada, mas altamente provocativa e tentadora criada em torno do governo Trump e do suposto Estado profundo que sua administração pretensamente enfrenta, é crucial para que se possa identificar e confrontar o verdadeiro Estado profundo que está orquestrando ambos os lados desse enigma.

Contar com os agentes políticos do Estado profundo para solucionar o problema do Estado profundo é mais do que inútil – é cair numa provocação arquitetada com a intenção de preservar e perpetuar o Estado profundo. Ao identificar a fonte genuína do poder e influência do real Estado profundo – a riqueza obtida de seus monopólios corporativo-financeiros, seu controle sobre as infraestruturas nacionais e internacionais e seus meios de comunicação –  poderemos começar a conceber alternativas práticas para enfraquecer esses monopólios e, por conseguinte, o poder e a influência que conferem a quem os controla.

Para isso, é necessário um período de transição que consubstancie iniciativas estatais e individuais empreendidas por todos que estiverem sob a ameaça do Estado profundo – que são todos os que estão fora das salas de diretoria onde os planos desse Estado são traçados e implementados.

Tony Cartalucci, escritor e analista geopolítico estabelecido em Bangkok, publica principalmente na revista digital New Eastern Outlook.”

Este artigo foi publicado originalmente em New Eastern Outlook

Copyright © Tony Cartalucci, New Eastern Outlook, 2017

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