Não tenha dúvida: O Estado profundo é real e Trump é seu mais recente instrumento

The Rutherford Institute, por John W. Whitehead, 23 de julho de 2018, tradução de Amita Satya

Por trás do governo ostensivo está entronizado um governo invisível, que não deve lealdade nem reconhece responsabilidade perante o povo.” ― Theodore Roosevelt

Algumas pessoas querem fazê-lo acreditar que o Presidente Trump é uma vítima involuntária do Estado profundo.

Outras insistem em que o Estado profundo é invenção de uma mente conspiradora.

Não acredite nelas.

O Estado profundo – também conhecido como Estado policial, ou complexo industrial militar, ou Estado de vigilância – existe de verdade e Trump, longe de ser seu maior inimigo, é seu mais recente instrumento.

Na dúvida, siga o rastro do dinheiro.

Ele sempre aponta o caminho.

Um presidente após o outro, começando por Franklin D. Roosevelt, foi totalmente comprado e teve que dançar conforme a música do Estado profundo.

Até mesmo Dwight D. Eisenhower, o general reformado de cinco estrelas do exército que se tornou presidente e alertou para o crescimento nefasto do poder impróprio do complexo industrial militar, que contribuía para incrementar o papel dos militares na determinação das políticas nacionais e internacionais.

Entra Donald Trump, o candidato que jurou drenar o pântano em Washington DC.

Em vez de acabar com a corrupção, porém, Trump abriu caminho para que os lobistas, as corporações, o complexo industrial militar e o resto do Estado profundo (também chamado de “grupo do 7º andar) se deleitassem sobre a carcaça da agonizante república americana.

Com exceção de tweets que ladram mas não mordem, Trump não é do tipo que desafie o sistema.

Ele está totalmente integrado ao sistema.

De fato, como diz a agência Reuters, “[O presidente] Trump fez mais do que todos os seus antecessores ao atuar como vendedor para a indústria de defesa dos EUA.”

Apesar das alegações em contrário, Trump não está defendendo a paz com a Rússia ou a Coreia do Norte nem qualquer outra nação.

Ele está nos vendendo aos falcões da guerra.

As últimas gritarias com relação ao Irã não passam de velhas bravatas e truques empregados para saciar a voracidade do complexo industrial militar, que considera a guerra como um simples meio de aumentar suas margens de lucro.

Os falcões da guerra não têm o menor problema com Trump.

E por que deveriam? Ele está dando exatamente o que eles querem.

Com a benção de Trump, o orçamento militar – que inclui guerras de trilhões de dólares, despesas administrativas de 125 bilhões de dólares e contratos superfaturados em benefício de empresas, que atingem o contribuinte americano onde ele mais sente – continuará aumentando.

Seguindo o exemplo de seus parceiros na China, na Rússia e na Coreia do Norte, Trump está inclusive planejando um desfile militar de 12 milhões de dólares no dia 10 de novembro para exibir a grandeza militar da nação.

Siga o rastro do dinheiro.

Ele sempre aponta o caminho.

As corporações estão ficando cada vez mais ricas, o americano médio cada vez mais pobre, os militares mais militarizados, as guerras sem fim dos Estados Unidos cada vez mais intermináveis e a perspectiva de paz cada vez mais distante.

É exatamente isso o que precisa ser feito para manter o Estado profundo no poder.

Viemos perdendo nossas liberdades de forma tão gradual e há tanto tempo – algo que nos foi vendido em nome da segurança nacional e da paz mundial, garantido por meio de lei marcial disfarçada de manutenção da ordem pública e executada por um exército permanente de policiais militarizados e uma elite política determinada a manter seu poder a qualquer custo – que fica difícil dizer quando foi mesmo que começamos a andar ladeira abaixo, embora se possa afirmar que estamos descendo, e rápido.

O “governo do povo, pelo povo e para o povo” desapareceu.

Em seu lugar, foi instaurado um governo oculto, uma burocracia arraigada, corporativa e militarizada, que opera plenamente com base na atuação de funcionários não eleitos, os quais, de fato, comandam o país e dão as cartas em Washington DC, independentemente de quem ocupe a Casa Branca.

Veja que, quando uso o termo “governo”, não estou me referindo à burocracia bipartidária altamente sectária de Republicanos e Democratas.

Refiro-me, em verdade, ao “governo” com “G” maiúsculo: um Estado profundo entrincheirado, que não é afetado por eleições nem se perturba com movimentos populares e que se posiciona fora do alcance da lei.

Tal é a face oculta de um governo que não respeita a liberdade de seus cidadãos.

Esse governo oculto, que “segue seu próprio compasso, independente de quem ocupe formalmente o poder,” despreza as eleições e o próprio conceito de governo representativo.

Onde então podemos reconhecer o Estado profundo tirando a cabeça da toca?

Na polícia militarizada, que se uniu aos órgãos estaduais e federais de aplicação da lei a fim de se estabelecerem como um exército permanente.

Nos centros de fusão das atividades dos órgãos de inteligência e nas agências de espionagem, que criaram um Estado de vigilância e nos transformaram a todos em suspeitos.

Nos tribunais e nas prisões que privilegiam o lucro das empresas em detrimento da justiça e do devido processo legal.

No império militar, com seus prestadores de serviços privados, e na indústria da defesa, que estão levando a nação à falência.

No setor privado, com seus 854.000 funcionários terceirizados autorizados a acessar informações ultrasecretas, “um número maior que o de funcionários públicos do governo com a mesma autorização”.

É a isso que o ex-funcionário do Congresso Mike Lofgren se refere como sendo “um híbrido de órgãos de aplicação da lei e de segurança nacional”: o Departamento de Defesa, o Departamento de Estado, o Departamento de Segurança Interna (Homeland Security), a CIA, o Departamento de Justiça, o Departamento do Tesouro, o Gabinete Executivo do Presidente por meio do Conselho de Segurança Nacional, o Tribunal de Vigilância de Inteligência Estrangeira, um grupo pequeno e fundamental de tribunais federais de primeira instância, e integrantes dos comitês de defesa e de inteligência.

Essas são as várias faces de um governo que deixou de respeitar a liberdade e que trabalha intensamente para espezinhar a Constituição e tornar os cidadãos impotentes diante de seu assalto ao poder, de sua corrupção e suas táticas abusivas.

Esses são os principais protagonistas que dirigem o governo das sombras.

Essa é a face oculta do Estado policial americano.

Atente para algumas das mais importantes políticas e programas – manifestações do complexo do Estado policial – que continuam sendo promovidas pelo governo oculto com total apoio de seu mais recente cúmplice a ocupar a Casa Branca:

Vigilância doméstica. A Agência Nacional de Segurança (NSA), com seu orçamento anual de 10,8 bilhões de dólares para operações secretas, continua espionando cada habitante dos Estados Unidos que usa um computador ou telefone. Contudo, o governo não trabalha sozinho. Nem pode. Ele precisa de um comparsa. Assim, as necessidades de segurança cada vez mais complexas de nosso gigantesco governo federal, especialmente nas áreas de defesa, vigilância e gerenciamento de dados, têm sido supridas pelo setor empresarial, que vem se revelando um aliado poderoso que tanto depende quanto alimenta o crescimento da burocracia governamental. Por exemplo, através de sua vasta rede de telecomunicações que cruza o planeta, a At&T proporciona ao governo estadunidense a complexa infraestrutura de que ele necessita para seus programas de vigilância em massa.

A qualquer hora do dia, seja caminhando dentro de uma loja, dirigindo seu carro, verificando e-mails ou conversando com amigos e familiares ao telefone, você pode ter a certeza de que alguma agência governamental, a NSA ou outra entidade, vai estar ouvindo o que você fala e monitorando seu comportamento. As polícias locais estão sendo equipadas com uma infinidade de aparelhos de vigilância que vão desde leitores de placas veiculares e dispositivos de rastreamento de telefones até gravadores de dados biométricos. Com a tecnologia atual, é possível que a polícia escaneie os transeuntes em um determinado local para detectar o que carregam em seus bolsos, bolsas e malas. Os escâneres de corpo inteiro, que fazem revistas corporais virtuais em todos os americanos que viajam de avião, tornaram-se portáteis e são transportados em viaturas policiais que conseguem espreitar qualquer veículo ou edifício, inclusive residências. Essas tecnologias, combinadas à crescente rede de câmeras de vigilância em tempo real e de programas de reconhecimento facial por todo o país, em breve farão com que ninguém mais tenha para onde fugir ou se esconder.

Espionagem global. A imensa rede de vigilância da NSA, que o jornal The Washington Post descreve como um “império de espionagem” de 500 bilhões de dólares, continua a estender seus tentáculos mundo afora para alcançar a cada indivíduo na face da Terra que possua um telefone ou computador. O programa Echelon da NSA intercepta e analisa praticamente toda e qualquer ligação telefônica ou mensagem de fax ou e-mail enviada de qualquer parte do mundo. Além de fazer a vigilância doméstica de grupos políticos pacíficos como a Anistia Internacional, o Greenpeace e várias entidades religiosas, o Echelon também tem sido um pilar das tentativas do governo de realizar espionagem empresarial e política.

Buscas itinerantes da TSA. Os contribuintes americanos continuam sendo ludibriados por órgãos governamentais em nome de uma duvidosa segurança nacional. Um dos maiores responsáveis por lesar os contribuintes é a Administração da Segurança dos Transportes (Transportation Security Administration, TSA), com sua questionável alocação e total malversação de milhões de dólares em aparelhos de raio-X para revistas de corpo inteiro, com as apalpadelas punitivas de seus agentes durante as revistas e com o roubo de objetos de valor dos viajantes. Considerados essenciais à segurança nacional, os programas da TSA continuarão sendo aplicados em aeroportos e centros de transporte de todo o país.

O Patriot Act dos EUA e a NDAA. A chamada guerra ao terror dos Estados Unidos, que o país tem perseguido incansavelmente deste o 11 de setembro, continua a corroer nossas liberdades, desmantelar nossa Constituição e transformar nossa nação em um campo de batalha, graças, em grande parte, a legislações subversivas tais como a Lei Patriota dos EUA (Patriot Act) e a Lei de Autorização da Defesa Nacional (National Defense Authorization Act, NDAA). Essas leis burlam completamente o Estado de direito e os direitos dos cidadãos americanos. Com isso, reorientam o cenário jurídico de modo a que a lei marcial, em vez da Constituição dos Estados Unidos, seja o mapa que usamos para guiar a vida neste país. Não importa quem vença as eleições, essas leis continuarão sendo impostas.

Estado policial militarizado. Devido aos programas de subsídios federais que permitem ao Pentágono transferir suprimentos e armas militares excedentes aos órgãos locais de aplicação da lei, de forma gratuita, as forças policiais continuam a ser transformadas de agentes da paz em extensões pesadamente armadas das forças militares, equipadas com botas de combate, capacetes, escudos, cassetetes, sprays de pimenta, armas de eletrochoque, fuzis de assalto, armaduras corporais, mini-tanques e drones com capacidade armada. Com luz verde para investigar, golpear, pressionar, eletrocutar, revistar, confiscar, despir e subjugar fisicamente quem bem entendam, em praticamente qualquer circunstância, quase sempre com a benção dos tribunais, os agentes da lei americanos, que deixaram de ser os servidores públicos encarregados de manter a paz, continuam a encurralar e controlar a população, tratando-a como suspeita ou inimiga ao invés de cidadã.

Incursões de equipes SWAT. Com mais de 80.000 incursões de equipes especiais das forças de segurança para ações de alto risco (SWAT) efetuadas todos os anos contra americanos inocentes pelas forças policiais locais, para tratar de questões relativamente rotineiras, e com os órgãos federais querendo criar suas próprias divisões policiais, a incidência de ações malsucedidas e de fatalidades resultantes continua aumentando. Em todo o território nacional, equipes SWAT continuam sendo empregadas para lidar com uma série de atividades criminosas completamente triviais ou com distúrbios banais nas comunidades, como cães agressivos, brigas domésticas, problemas com documentação de verdureiros e delitos menores por posse de cannabis.

Drones domésticos. O uso de drones em território nacional prossegue com a mesma intensidade. Com autorização do Congresso, 30.000 drones estarão cruzando os céus dos Estados Unidos em 2020, todos parte de uma indústria que pode render até 30 bilhões de dólares por ano. Esses aparelhos, equipados com armas, poderão gravar qualquer tipo de atividade por meio de câmaras de vídeo, sensores de calor e radares. Um relatório do Inspetor-Geral revelou que o Departamento de Justiça já gastou quase 4 milhões de dólares em drones no mercado doméstico, sobretudo para uso do FBI, com financiamento de mais 1,6 milhões para que departamentos de polícia e organizações sem fins lucrativos possam adquirir seus próprios aparelhos.

Direto da escola para a cadeia. Um modelo de obediência vergonhosa ao Estado continua a ser ensinado nas escolas por meio de exemplo: com os policiais cercando os estabelecimentos de ensino e entrando nas salas de aula acompanhados de cães farejadores de drogas e com políticas de tolerância zero que punem qualquer infração sem distinguir entre elas, levando os jovens a serem expulsos da escola por comportamento infantil. Distritos escolares continuam se associando aos órgãos de aplicação da lei para criar uma “via direta da sala de aula para a cadeia” ao impor punições dobradas: suspensão ou expulsão da escola, acompanhada de detenção policial e condução a um tribunal de menores.

Criminalização excessiva. A burocracia governamental continua a produzir uma enxurrada de leis, estatutos, códigos e regulamentos que reforçam seus poderes e sistemas de valores, assim como os do Estado policial e de seus aliados no setor empresarial, fazendo com que nos tornemos todos pequenos delinquentes. Agora, sem mesmo saber, o americano médio comete três delitos por dia graças a essa superabundância de leis vagas que tornam ilegais atividades outrora inocentes. Em consequência, pequenos agricultores que ousam produzir queijo de leite de cabra não pasteurizado e compartilhar a produção com membros de sua comunidade continuam tendo suas propriedades submetidas a ações policiais.

Prisões privatizadas. Os estados continuam a entregar as prisões nas mãos de empresas privadas, transformando-as em galinhas dos ovos de ouro num esquema em que as megacorporações encarceram os americanos em penitenciárias privadas para obter lucro. A fim de que as empresas comprem e administrem estabelecimentos prisionais públicos em todo o país, o que supostamente pouparia os cofres estaduais, os estados têm que se comprometer com uma taxa de ocupação de 90% nos presídios privatizados por no mínimo 20 anos.

Guerras intermináveis. O crescente império militar dos Estados Unidos continua a sangrar o país a um volume de mais de 15 bilhões de dólares ao mês (ou 20 milhões de dólares por hora). O Pentágono gasta mais com guerras do que todos os 50 estados juntos gastam com saúde, educação, assistência social e segurança. No entanto, o que a maioria dos americanos não consegue entender é que essas guerras constantes pouco têm a ver com a segurança do país, mas muito com enriquecer o complexo industrial militar à custa dos contribuintes.

Você começa a entender o que acontece?

O presidente atual, assim como o anterior e seus predecessores, não passa de um testa de ferro, um fantoche encarregado de entreter e desviar a atenção da população do que realmente está acontecendo.

Como revela Lofgren, este Estado dentro do Estado, “que se oculta detrás do que está visível em ambas as extremidades da Pennsylvania Avenue,” é uma “entidade híbrida formada por instituições públicas e privadas, que controla o país de modo consistente em qualquer circunstância, e que está vinculada, mas só às vezes subordinada, ao Estado visível cujos líderes elegemos”.

O Estado profundo não só mantém a capital nacional subjugada, como também controla o Vale do Silício e Wall Street (“que fornece o dinheiro que conserva a máquina política sossegada e funcionando como um marionete diversionista”).

Trata-se do fascismo em sua forma mais clandestina, escondido atrás de órgãos públicos e empresas privadas para executar ações sujas.

É um casamento entre burocratas do governo e magnatas corporativos.

Como Lofgren conclui:

O Estado profundo está tão firmemente encastelado, tão bem protegido pela vigilância, por seu poder de fogo, seu dinheiro e sua habilidade para cooptar a resistência, que é praticamente imune a mudanças […] Se tem algo que o Estado profundo demanda é um fluxo silencioso e ininterrupto de dinheiro e a confiança de que as coisas vão se manter como sempre foram. Até mesmo um certo grau de divergência pode ser tolerado: os combates de luta-livre partidária ao estilo telecatch sobre questões culturais podem ser muito úteis para desviar a atenção de seus objetivos.

Vamos então parar com essa conversa de que Trump é uma vítima do Estado profundo.

Não existe qualquer conspiração para acabar com Trump.

Ele está cumprindo muito bem o seu papel de semear a discórdia, de criar distrações que mantêm os americanos alienados das lutas pelo poder travadas pelo governo, e de ajudar a promover os programas que vão gerar lucros para o Estado profundo.

Trump não é nenhuma vítima.

Se você quiser falar das verdadeiras vítimas do Estado profundo, vamos falar dos homens e mulheres e crianças que levaram tiros, foram mortos e brutalizados, que foram espionados e silenciados e presos e roubados com uma arma apontada, tratados como se não tivessem qualquer direito.

Vamos falar do estado lastimável de nossas liberdades, que continuam sendo suprimidas indefinidamente.

Vamos lembrar que o desprezo pela Constituição, a corrupção, a incompetência e a crueldade não são exclusividade do governo Trump. São as marcas características do Estado policial americano.

Então, da próxima vez que você se impressionar com os últimos tweets ou encenações de Trump, ou que for tragado para um debate politizado sobre as intrigas do Congresso, do presidente ou do judiciário, lembre-se de que, como deixo claro em meu livro A Government of Wolves: The Emerging American Police State, tudo isso é feito para distraí-lo do fato de que você não têm qualquer autoridade ou direito frente ao Estado profundo, não importa quem assuma os cargos oficiais.

Enquanto os funcionários do governo – eleitos e não eleitos – puderem operar fora do âmbito da Constituição, dos tribunais e da cidadania, a ameaça às nossas liberdades será constante.

*

O advogado constitucionalista e escritor John W. Whitehead é presidente e fundador do The Rutherford Institute. Seu novo livro, Battlefield America: The War on the American People  (SelectBooks, 2015) está disponível na www.amazon.com. Whitehead pode ser contatado em johnw@rutherford.org.

 Este artigo foi publicado originalmente pelo The Rutherford Institute

Copyright © John W. Whitehead, The Rutherford Institute, 2018

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